Não dá para saber ao certo quantas pessoas receberão a notícia de que têm um câncer enquanto você estiver lendo este texto. Mas, sinto dizer, até a última linha não serão poucas: talvez umas 400, considerando o mundo inteiro. Aqui, em nosso país, uma ou duas por minuto, partindo da estimativa do Inca (Instituto Nacional de Câncer) de que 781 mil brasileiros devem descobrir um tumor maligno só entre janeiro e dezembro deste ano.
Os casos vêm aumentando consistentemente, e não é de hoje. Ora, a gente está vivendo muito mais e, com o avançar da idade, aumenta a probabilidade de surgir uma célula defeituosa, para não dizer descontrolada, que passa a se multiplicar sem freio e que, ainda por cima, possui certa vocação para sair do seu canto e espalhar cópias doentes pelo corpo.
Além da maior expectativa de vida, o mundo está mais poluído, a radiação solar anda impiedosa, as refeições são repletas de alimentos ultraprocessados, a atividade física vem sendo trocada por tempo na frente de telas, boa parte da população está acima do peso e por aí vai. Tudo isso se soma a velhos fatores de risco, como o tabagismo e o consumo de álcool.
É verdade que hoje o diagnóstico de um câncer deixou de ser o prenúncio do fim. Significa recomeço para muitos pacientes, graças aos avanços da medicina. Porém, também é verdade que os novíssimos tratamentos são tão eficazes quanto caros à beça. Para atender a esse mundaréu de gente, a conta não fecha.
"As drogas atuais são inteligentíssimas, com um bocado de tecnologia. É realmente lindo ver o que fazem. Mas nenhum sistema de saúde conseguirá bancá-las", prevê, com os pés no chão, o médico patologista Victor Piana, CEO do A. C. Camargo Cancer Center. "Até mesmo para quem tem recursos financeiros, elas se tornam impagáveis."
Por isso, quando a instituição recebeu a visita de pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, com o apoio do governo britânico e do Ministério da Saúde, um dos principais focos foi a construção de parcerias não para encontrar novas drogas, mas para o desenvolvimento de vacinas contra o câncer.
"Parece lógico: é muito melhor prevenir com uma vacina do que esperar alguém ficar doente", diz o doutor Piana que, para o encontro, fez questão da presença de representantes de outras instituições fortes, como Fiocruz, Inca e os principais hospitais do país com pesquisa voltada ao câncer. O convite é para que todos juntos trabalhem em colaboração, criando um consórcio com a missão de encarar o desafio, unindo forças e cabeças.
Malignas e fingidas
O sistema imunológico é capaz de reconhecer proteínas anômalas na superfície de uma célula doente para destrui-la, impedindo que ela siga em frente. Mas, se isso falha por algum motivo, como a idade avançada, o câncer recém-surgido logo dá um jeito de escapar de sua vigilância.
Entre outras artimanhas, as células cancerosas enganam as defesas, fingindo-se normais. E elas então, vendo que são células do próprio corpo e sem nada de estranho, baixam a guarda. O câncer ganha passe livre para crescer.
No encontro com pesquisadores brasileiros organizado pelo A. C. Camargo, o médico Lennard Lee, professor associado da Universidade de Oxford e líder do programa de vacinas contra o câncer do Reino Unido, conta que será mais fácil desmascarar essas células malignas com o uso de inteligência artificial. "A IA é capaz de analisar dezenas de milhares de casos para encontrar padrões ocultos que, reproduzidos em vacinas, ensinariam o sistema de defesa do organismo a finalmente reconhecê-las."
Essa etapa, a de buscar uma proteína exclusiva da célula cancerosa, costuma ser a mais demorada. "Mas com a IA isso já está acelerando muito", garante o professor Lee. Segundo ele, com o uso de supercomputadores, será bem mais fácil criar uma vacina terapêutica personalizada, como arma da medicina de precisão, que induzirá o sistema imunológico de um determinado paciente a combater o seu tumor.
Mas, aí, voltamos ao ponto: isso é tratamento, não é prevenção. Muito mais desafiador é chegar a vacinas para serem aplicadas não em um único sujeito, mas na população. Ou seja, vacinas que antecipam uma característica que apareça no tumor de qualquer um para o organismo ter chance de pegá-lo no pulo. Os pesquisadores de Oxford já estudam vacinas nesse caminho, com a missão de interceptar o câncer, como eles gostam de dizer.
Um bom exemplo
A bióloga Carol Leung mostrou em que pé está o desenvolvimento de doze vacinas. A do câncer hepático e a do mieloma, por exemplo, ainda estão na etapa de buscar possíveis alvos, isto é, proteínas que poderiam, quem sabe, ser usadas no imunizante. Já o estudo de uma vacina contra o câncer de ovário está dois passos adiante: os cientistas já estão testando e validando em laboratório o alvo escolhido.
O que anima mesmo é a LungVax, a vacina contra o câncer de pulmão. Explico: os ensaios clínicos devem começar no mês que vem com pacientes que apresentam alto risco para essa doença, como ex-tabagistas inveterados. O objetivo é diminuir essa ameaça.
A doutora Leung contou que a tecnologia da LungVax é a mesma que os cientistas de Oxford usaram na vacina contra a covid-19, criada em parceria com a AstraZeneca. "Só que, desta vez, um adenovírus de macacos, incapaz de causar qualquer mal a seres humanos, levará a informação de uma proteína na superfície do tumor pulmonar", explicou.
A ideia é que as células infectadas por esse vírus contido no imunizante passem a produzir a tal proteína tumoral, chamando a atenção dos linfócitos de defesa, como se ela fosse uma bandeira. Desse jeito, eles aprenderão a partir para o ataque sempre que a encontrarem pela frente. Isto é, se algum dia um câncer de pulmão surgir para valer.
Vacina em vez de quimioterapia?
O CEO do A. C. Camargo Cancer Center levanta outra possibilidade: "Imagine uma mulher que retirou um câncer de mama", pede o doutor Victor Piana. "O cirurgião extirpa todo o tumor e a biópsia confirma que a paciente está livre da doença", continua ele. "Mesmo assim, o oncologista prescreverá a quimioterapia por segurança, para matar eventuais células do tumor de mama que tenham escapado e viajado pelo corpo."
Então, o médico patologista mostra onde quer chegar: "E se, em vez de várias sessões de químio, essa mulher recebesse a picada de uma vacina logo depois de operada? Além de reduzirmos o custo do tratamento, evitaríamos uma série de efeitos colaterais das drogas quimioterápicas".
Sim, esta é mais uma possibilidade para as vacinas que vêm por aí. E é claro que os pesquisadores brasileiros presentes na reunião ficaram agitados. Chegaram a discutir qual vacina seria estudada por aqui. Mas logo viram que o consórcio precisa se organizar, examinando os casos que cada serviço recebe, para fazer essa escolha. Será uma boa escolha, de todo modo.
"Se a gente conseguisse um dia eliminar o câncer no Brasil e o A. C. Camargo deixasse de existir, estaria tudo muito bem. Iríamos fazer, felizes, outra coisa da vida", afirma o doutor Piana. Seria, de fato, missão cumprida. Por ora, ela está dada.